domingo, 24 de abril de 2011

E por falar em saudade...



 
      
      Um sentimento palpita dentro de mim, como se não encontrasse um lugar seguro para repousar. Sem acalmar o brado da inquietude, que lembra um vento forte num fim de tarde morno, os primeiros sinais da noite vêm como um açoite no meu coração. 

      No meu silêncio noturno, procuro na imagem da lua um refúgio para tanto alvoroço interior... Aos poucos, sob o brilho que clareia o céu escuro, sinto a calma afagando,  mansamente, aquela correria que me tirava o sossego. Logo me deito... 

     Ainda assim, a ausência resiste presunçosa, teimando em interromper minha breve calmaria. E à medida que a noite se prolonga, a solidão me sufoca com seus braços apertados, enquanto reluto em vão para desatar o nó que me aperta o peito.

      Esta agonia, embora sem forma, tato ou cheiro, solidifica-se na moldura a que chamamos de... Saudade! Só tamanha nostalgia é capaz de fazer chover dentro de mim, multiplicando as horas da escuridão e arrancando vorazmente os sapatos que me protegiam do chão gelado, no único trajeto por onde sigo para me livrar do despudor daquele abraço sombrio.

     Ah...! Como dói a falta de você...! A madrugada, contudo, vai acendendo a luz do dia, sob o frescor do perfume doce da manhã que se aproxima... É hora de despertar do sono da saudade, de lavar o rosto na água corrente, que devolve aos meus olhos a sensatez da claridade do dia.

      Com a luz do sol, que ressurge amarelando o horizonte inteiro, o meu semblante recupera a energia desperdiçada em mais uma noite mal dormida, reacendendo a chama do meu sorriso ainda desajeitado, que ensaio em frente ao espelho. 

      A sua falta reside comigo, no mesmo endereço, dividindo o mesmo quarto. Chega todas as noites, quando volto para casa e já não encontro, nos espaços agora vazios, os vestígios de sua presença, que completavam os armários da minha existência.

     Mas enfim... Preciso me ver sozinha, pois é assim que estou agora. É tempo de alçar voo e abandonar os costumes de outrora, que não preenchem mais o pedaço incompleto de minha alma, nem satisfazem a ânsia do meu desejo que espera ser vivido...

     Junto os cacos das lembranças palpitantes e coloco tudo dentro de uma caixa que para sempre guardará os momentos de amor que já não se repetirão mais. Estes, não... No entanto, apesar dos pesares, a coragem de dar início à mudança me faz respirar melhor, e meu coração já não teme a noite que logo, logo, chegará.

     Assim, prossigo... O primeiro passo foi consumado... Os dados foram lançados. E o meu medo de abandonar os hábitos antigos deu lugar à proposta ousada de me deixar viver intensamente, cuidando mais de mim, fazendo as coisas de que gosto e, sobretudo, confiando nos finais felizes das histórias dos meus versos de amor. 

     E por falar em saudade... Que bom senti-la desse jeito novo, com a liberdade das asas que eu mesma me dei, na descoberta alegre do meu novo sentido de viver... Com flores no lugar de sombras, em um jardim que enfeito incansavelmente, de dia ou de noite, onde eu jamais estarei sozinha... Não enquanto houver saudade!  

Por: Mara Melinni 



     

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Toda pessoa é sempre as marcas de outras tantas pessoas. E é tão bonito quando a gente entende que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá. É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense que está.
Gonzaguinha

Beijos e volte sempre!

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